Jovem da Cruz Vermelha é selecionado para time de vôlei paraolímpico e disputará o campeonato brasileiro

Gabriel Gonçalves, 18 anos, nascido no bairro Piratininga, zona norte de Belo Horizonte, é uma pessoa difícil de não ser notada. Todos os dias, o sorriso gasta um bom tempo em seu rosto. Cumprimenta a todos já de longe, quando cruza com os colegas do Programa Ação Jovem, do qual participa na Cruz Vermelha Brasileira – Filial Minas Gerais. Alto, tranquilo, simpático, chama a atenção de quem convive com ele na rotina do seu primeiro emprego, como aprendiz em auxiliar administrativo.

O que muita gente não sabe é que Gabriel, que teve uma das pernas amputadas aos 14 anos, em decorrência de um tumor ósseo, já foi bem mais triste do que aparenta. “Não falo muito disso, mas meu sonho era ser jogador de futebol e eu descobri a minha doença exatamente jogando bola”, relata. A piora do quadro médico e a necessidade da amputação arrancaram dele, também, os planos da infância em ser um atleta profissional. “Tomei uma mágoa grande, uma depressão com isso”, afirma hoje com naturalidade e leveza.

Após ter superado essa etapa, Gabriel procurou esquecer os sonhos do passado e seguiu sua vida junto aos milhares de jovens com alguma deficiência que buscam a sua afirmação na sociedade. Estuda, se diverte e conseguiu o emprego no Programa Ação Jovem. A roda da vida levou-o, porém, ao mesmo lugar no último dia 31 de maio, quando a Cruz Vermelha promoveu uma visita dos seus adolescentes ao projeto Superar, que envolve esportes de modalidade paraolímpico. Ao conhecerem o jovem, os treinadores do time se entusiasmaram com o seu espírito positivo, porte físico e perfil. Era o atleta que precisavam para a equipe de vôlei adaptado do projeto.

Hoje, menos de três semanas depois, Gabriel está treinando em ritmo forte e já até mesmo disputa alguns jogos em Belo Horizonte e em outros estados. Apaixonou-se novamente pela ideia de competir profissionalmente, estudou e aprendeu as regras da sua modalidade, retomou o espírito que estava guardado dentro do peito desde a infância. “Estou cansado, dolorido, minha rotina já começou a mudar totalmente, mas está valendo a pena”, relata com animação. Gabriel está se preparando para disputar, nos próximos meses, o campeonato brasileiro de vôlei sentado.

O motivo do interesse dos técnicos é justificável. Aos 18 anos, dedicando-se e treinando com afinco, Gabriel pode chegar longe na sua modalidade e ter de fato uma carreira no esporte. Sua meta pessoal é muito clara: “Quero disputar uma olimpíada”, diz. “Uma não, mais de uma né”, corrige logo em seguida. Nos jogos paraolímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, a seleção brasileira de vôlei sentado alcançou o seu melhor resultado na história, o quarto lugar da competição. O esporte está se desenvolvendo no país e poderá surpreender nos próximos campeonatos internacionais.

Além disso, Gabriel conta que o encontro com o vôlei também tem ajudado a construir o resto dos sonhos da sua vida. Com o fim do seu contrato no Programa Ação Jovem, ele traça novos destinos pelo mapa dos próximos anos. “Posso me tornar mesmo profissional e ter o benefício da bolsa-atleta, posso ter o apoio, a partir do esporte, de cursar uma universidade, acho que isso pode mesmo mudar a minha vida”, espera. A mágoa com o passado parece ter ficado para trás. Agora, nos encontros animados com os colegas, o adolescente também fala dos planos que a vida lhe trouxe de volta.

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